24.3.09

Velocidade


Neste livro, Billy Wiles é um rapaz pacato e trabalhador que leva uma vida calma e comum. Mas isso está prestes a mudar. Certa noite, após o seu turno de trabalho como barman, ele encontra no limpador de pára-brisa de seu carro um bilhete datilografado - 'Se você não levar este bilhete à polícia nem envolvê-la, vou matar uma linda professora loura em algum lugar do condado de Napa. Se levar este bilhete à polícia, matarei uma mulher idosa que faz obras de caridade. Você tem seis horas pra decidir. A escolha é sua.' Parece uma brincadeira doentia, e Lanny Olsen, um policial amigo de Billy, concorda com isso. Seu conselho a Billy era ir para casa e deixar aquilo de lado. Além do mais, os que eles poderiam fazer mesmo se levassem o bilhete a sério? Nenhum crime havia sido cometido. No entanto, menos de 24 horas depois, uma jovem e bela professora loura é encontrada morta, e Billy é o culpado - ele não convenceu a polícia a se envolver no caso. Agora ele tem um novo bilhete, um outro prazo, um outro ultimato... e duas novas vidas por um fio.

(Dean Koontz; Editora: Nova Fronteira)

Leia o primeiro capítulo

Com chope e um sorriso, Ned Pearsall brindou seu falecido vizinho,Henry Friddle, cuja morte lhe agradava tremendamente.Henry tinha sido morto por um anão de jardim. Caiu do telhadode sua casa de dois andares sobre aquela figura jovial. Oanão era feito de concreto. Henry, não.Pescoço partido, crânio rachado: morreu na hora.Essa morte por anão tinha acontecido havia quatro anos. NedPearsall ainda brindava o falecimento de Henry pelo menos umavez por semana.Agora, num banco perto da curva do lustroso balcão de mogno,um forasteiro, o único outro freguês, estava curioso com anatureza persistente da animosidade de Ned.— Até que ponto o coitado podia ser um vizinho tão ruim paravocê continuar com essa indignação contra ele?Normalmente, Ned teria ignorado a pergunta. Gostava aindamenos de turistas do que de donuts.O bar oferecia tigelas grátis de donuts porque eram baratas.Ned preferia manter sua sede com amendoins bem salgados.Para que Ned continuasse dando gorjetas, Billy Wiles, que serviano balcão, ocasionalmente lhe dava um saco de amendoins salgados.Na maioria das vezes, Ned tinha de pagar pelos amendoins.Isso o deixava furioso, fosse por não conseguir entender as realidadeseconômicas de se manter um bar ou por gostar de ficarfurioso — provavelmente, a segunda hipótese.Apesar de ter uma cabeça que lembrava uma bola de squash eos ombros pesados e redondos de um lutador de sumô, Ned só eraatlético se você achasse que papo furado de bar e ressentimentosse qualificavam como esportes. Nessas modalidades, ele era dignodas Olimpíadas.Se o assunto era Henry Friddle, Ned podia ser tão falante comos forasteiros quanto com quem morava em Vineyard Hills desdeque nasceu. Quando, como agora, o único freguês além dele eraum estranho, Ned achava o silêncio ainda menos agradável doque a conversa com um “diabo de um forasteiro”.O próprio Billy nunca fora muito falante, nunca fora daquelesbarmen que consideravam o balcão um palco. Só ficava escutando.Ao forasteiro, Ned declarou:— Henry Friddle era um porco.O estranho tinha cabelos pretos como carvão, com traços grisalhosnas têmporas, olhos cinzentos brilhando e voz suavementeressonante.— Esta é uma palavra forte: porco.— Sabe o que o tarado estava fazendo em cima da casa? Tentandomijar na janela da minha sala de jantar.Enxugando o balcão, Billy Wiles nem olhou para o turista.Tinhaouvido a história tantas vezes que já sabia como as pessoasreagiam a ela.— Friddle, o porco, achou que a altura daria mais distância aojorro — explicou Ned.— O que ele era? — perguntou o estranho. — Engenheiro aeronáutico?— Professor universitário. Ensinava literatura contemporânea.— Talvez esse tipo de leitura o tenha levado ao suicídio — disseo turista, o que o tornou mais interessante do que Billy haviapensado a princípio.— Não, não — reagiu Ned, impaciente. — A queda foi acidental.— Estava bêbado?— Por que acha que ele estaria bêbado?O estranho deu de ombros.— Ele subiu num telhado para urinar na sua janela.— O sujeito era doente — explicou Ned, batendo com um dedono copo vazio para indicar que queria outra bebida.Enquanto tirava o chope, Billy falou:— Henry Friddle era consumido pela vingança.Depois de uma comunhão silenciosa com sua cerveja, o turistaperguntou a Ned Pearsall:— Vingança? Então, você urinou na janela de Friddle primeiro?— Não foi a mesma coisa, de jeito nenhum — alertou Ned, numtom áspero que aconselhava o estranho a evitar julgamentos.— Ned não fez isso de cima do telhado — explicou Billy.— É mesmo. Fui até a casa dele, como homem, parei no gramadoe mirei na janela da sala de jantar.— Na hora, Henry e a mulher estavam jantando — completouBilly.Antes que o turista pudesse exprimir repulsa pelo momento daagressão, Ned falou:— Estavam comendo codorna, pelo amor de Deus!— Você mijou na janela porque eles estavam comendo codorna?Ned bufou, exasperado.— Não, claro que não. Eu pareço maluco?E revirou os olhos para Billy.Billy ergueu as sobrancelhas como se dissesse: o que você esperade um turista?— Só estou tentando mostrar como eles eram pretensiosos —esclareceu Ned —, sempre comendo codorna, lesmas ou acelga.— Sacanas metidos a besta — disse o turista, com um temperotão leve de zombaria que Ned Pearsall não o detectou, masBilly sim.— Exato — confirmou Ned. — Henry Friddle tinha um Jaguar;e a mulher tinha um carro... você não vai acreditar: um carro feitona Suécia.— Detroit era comum demais para eles — supôs o turista.— Exato. Como é que alguém pode ser esnobe a ponto de trazerum carro lá da Suécia?— Aposto que eram apreciadores de vinho.— É isso aí! Você conhecia os dois?— Só conheço o tipo. Tinham um monte de livros.— Acertou na mosca. Eles ficavam sentados na varanda dafrente, cheirando vinho, lendo livros.— E em público. Imagine só. Mas, se você não mijou na janelada sala de jantar porque eles eram esnobes, por que fez isso?— Mil motivos — garantiu Ned. — O incidente do gambá. Oincidente do adubo de gramado. As petúnias mortas.— E o anão de jardim — acrescentou Billy, enquanto lavavacopos na pia do balcão.— O anão de jardim foi a gota d’água — concordou Ned.— Entendo que alguém seja levado à urinação agressiva porcausa de flamingos de plástico rosa-choque — disse o turista. —Mas, francamente, por causa de um anão!Ned fez uma careta, lembrando-se da afronta.— Ariadne fez o anão com a minha cara.— Ariadne?— A mulher de Henry Friddle. Já ouviu nome mais pretensioso?— Bem, o sobrenome Friddle faz com que fique mais pé-nochão.— Ela era professora de arte na mesma faculdade. Esculpiu pessoalmenteo anão, criou o molde, derramou o concreto e pintou.— Ter uma escultura inspirada em você pode ser uma honra.A espuma de chope no lábio superior de Ned lhe deu umaaparência encolerizada quando ele protestou.— Era um anão, meu chapa. Um anão bêbado. O nariz eravermelhocomo uma maçã. Ele segurava uma garrafa de cervejaem cada mão.— E a braguilha estava aberta — acrescentou Billy.— Muitíssimo obrigado por lembrar — resmungou Ned. —Pior, tinha uma cabeça e um pescoço de ganso morto saindo dacalça.— Que criativo! — comentou o turista.— A princípio, eu não sabia que diabo aquilo significava...— Simbolismo. Metáfora.— É, é. Eu deduzi. Todo mundo que passava pela casa delesolhava aquilo e morria de rir às minhas custas.— Nem seria preciso ver o anão para isso — observou o turista.Entendendo mal, Ned concordou:— É mesmo. Só de ouvir dizer, as pessoas riam. Por isso, arrebenteio anão com uma marreta.— E eles processaram você.— Pior. Puseram outro anão. Achando que eu ia arrebentar oprimeiro, Ariadne tinha moldado e pintado um segundo.— E eu que achava que a vida era tranqüila aqui na regiãovinícola!— Aí — continuou Ned —, eles disseram que, se eu arrebentasseo segundo, iam colocar um terceiro no gramado, e além disso,iriam fazer um monte e vender a preço de custo a qualquer umque quisesse um anão Ned Pearsall.— Parece uma ameaça inócua — disse o turista. — Haveriagente para comprar uma coisa dessas?— Dezenas de pessoas — garantiu Billy.— Esta cidade virou um lugar ruim desde que o pessoal dopatê-com-brie começou a vir de São Francisco — observou Ned,carrancudo.— E como você não ousou dar marretadas no segundo anão,ficou sem outra saída além de mijar na janela deles.— Exato. Mas não fui assim, de qualquer jeito. Pensei na situaçãodurante uma semana. Depois, esguichei na casa deles.— Em seguida, Henry Friddle subiu no telhado com a bexigacheia, sedento de justiça.— É. Mas esperou até eu fazer um jantar de aniversário paraa minha mãe.— Imperdoável — garantiu Billy.— A máfia ataca membros inocentes da família dos outros?— perguntou Ned, indignado.Ainda que a pergunta fosse retórica, Billy trabalhou pelagorjeta:— Não. A máfia tem classe.— Uma palavra que esses professores nem sabem soletrar —disse Ned. — Mamãe estava fazendo 76 anos. Podia ter tido umataque cardíaco.— Então — insistiu o turista —, enquanto tentava urinar najanela de sua sala de jantar, Friddle caiu do telhado e quebrou opescoço no anão Ned Pearsall. Bem irônico.— Não sei se foi irônico — respondeu Ned. — Mas, sem dúvida,foi doce.— Conte o que sua mãe disse — instigou Billy.Depois de um gole de chope, Ned contou:— Mamãe disse: querido, louve o Senhor. Isso prova que Deusexiste.Depois de um momento para absorver essas palavras, o turistaobservou:— Ela parece uma mulher bem religiosa.— Nem sempre foi. Mas aos 72 anos pegou pneumonia.— Sem dúvida, é conveniente ter Deus num momento assim.— Mamãe achou que, se Deus existisse, talvez fosse salvála.Se não existisse, ela não perderia nada além de algum temporezando.— O tempo é nosso bem mais precioso — alertou o turista.— Certo. Mas mamãe não gastava muito tempo, porque conseguiarezar vendo televisão.— Que história inspiradora!O turista pediu uma cerveja.Billy abriu uma pretensiosa garrafa de Heineken, pegou outrocopo, gelado, e sussurrou:— Esta é por conta da casa.— Gentileza sua. Obrigado. Estive pensando que, para umbarman, você é discreto e tem fala mansa, mas agora talvez eu entendapor quê.De seu posto solitário mais adiante no balcão, Ned Pearsalllevantou o copo num brinde:— À Ariadne. Descanse em paz.Embora possa ter sido contra a sua vontade, o turista se interessoude novo. Perguntou a Ned:— Não foi outra tragédia com um anão, foi?— Câncer. Dois anos depois de Henry cair do telhado. Eu gostariaque isso não tivesse acontecido.Enquanto derramava a Heineken no copo inclinado, o estranhofalou:— A morte tem a capacidade de colocar em perspectiva nossaspequenas questões mesquinhas.— Sinto falta dela — disse Ned. — A dona tinha os peitõesmais espetaculares, e nem sempre usava sutiã.O turista se remexeu.— Ela trabalhava no jardim ou ia passear com o cachorro— lembrou Ned, quase sonhador — e aquele belo par de tetasbalançava e bamboleava de um jeito tão doce que era de tirar ofôlego.O turista verificou o próprio rosto no espelho atrás do balcão,talvez para ver se aparentava estar tão pasmo quanto se sentia.— Billy — perguntou Ned —, ela não tinha as tetas mais belasque a gente podia ter esperança de ver?— Tinha — concordou Billy.Ned desceu do banco, cambaleou em direção ao banheiro masculinoe parou junto ao turista.— Mesmo quando o câncer acabou com ela, as mamas nãoencolheram. Quanto mais magra ficava, maiores pareciam, proporcionalmente.Perto de morrer, ela era um tesão. Que desperdício,hein, Billy?— Que desperdício — ecoou Billy, enquanto Ned se encaminhavapara o banheiro.Depois de um silêncio compartilhado, o turista disse:— Você é um sujeito interessante, Billy Barman.— Eu? Nunca mijei na janela de ninguém.— Você é como uma esponja, acho. Absorve tudo.Billy pegou um pano de pratos e poliu alguns copos de cervejaque tinham sido lavados e enxugados.— Mas também é uma pedra — continuou o turista. — Porque,se for espremido, não devolve nada.Billy continuou polindo os copos.Os olhos cinzentos, brilhando, iluminaram-se ainda mais.— Você é um homem com uma filosofia, o que é incomumatualmente, quando a maior parte das pessoas não sabe quem é,em que acredita, nem por quê.Esse também era um estilo de papo de bar com o qual Billy estavafamiliarizado, mas que não ouvia com freqüência. Comparadasàs arengas de Ned Pearsall, essas observações bêbadas podiam parecereruditas; mas não passavam de psicanálise regada a cerveja.Ficou desapontado. Por um breve instante, o turista parecera diferentedos bundões usuais que esquentavam o vinil dos bancos.Sorrindo, balançando a cabeça, Billy falou:— Filosofia. Você me dá crédito demais.O turista tomou um gole de Heineken.Ainda que não tivesse pretendido dizer mais, Billy ouviu-secontinuando:— Fique na moita, fique quieto, mantenha a coisa simples, nãoespere muito, curta o que tem.O estranho sorriu.— Seja auto-suficiente, não se envolva, deixe o mundo ir parao inferno, se quiser.— Talvez — admitiu Billy.— Digamos que não é Platão, mas é uma filosofia.— Você tem alguma filosofia?— Neste momento, acredito que minha vida será melhor emais significativa se eu simplesmente evitar outras conversas como Ned.— Isso não é filosofia. É fato.*Às 16h10, Ivy Elgin veio trabalhar. Era uma garçonete boacomo qualquer outra, e objeto de desejos sem igual.Billy gostava de Ivy, mas não sentia desejo por ela. A falta detesão dele o tornava único entre os homens que trabalhavam oubebiam no bar.Ivy tinha cabelo cor de mogno, olhos límpidos cor de conhaquee o corpo que Hugh Hefner, fundador da Playboy, passara avida procurando.Mesmo com 24 anos, parecia genuinamente não perceber queera a fantasia masculina essencial em carne e osso. Jamais era sedutora.Às vezes, podia flertar, mas só de modo cativante.A beleza e a sinceridade quase infantil formavam uma combinaçãotão erótica que seu sorriso já bastava para deixar um sujeitocomum pegando fogo.— Oi, Billy — disse Ivy, indo direto ao balcão. — Vi um gambámorto na Old Mill Road, a uns quatrocentos metros da KornellLane.— Morto naturalmente ou atropelado?— Totalmente atropelado.— O que você acha que isso significa?— Nada específico, por enquanto — respondeu ela, entregandoa bolsa para ele guardar atrás do balcão. — É a primeira coisamorta que vejo em uma semana, portanto, depende de outros cadáveresaparecerem, se aparecer algum.Ivy acreditava que era uma arúspice. Os arúspices, uma classede sacerdotes na Roma antiga, adivinhavam o futuro nas entranhasde animais mortos nos sacrifícios.Eram respeitados, até mesmo reverenciados pelos outros romanos,mas provavelmente não recebiam muitos convites parafestas.Ivy não era mórbida. A aruspicação não ocupava o centro desua vida. Raramente falava sobre isso aos fregueses.E não tinha estômago para remexer entranhas. Para uma arúspice,era exageradamente sensível.Em vez disso, encontrava significados na espécie do cadáver,nas circunstâncias de sua descoberta, na posição deste emrelaçãoaos pontos cardeais e em outros aspectos ocultos de seuestado.Suas previsões raramente se confirmavam, se é que se confirmavam,mas Ivy persistia.— O que quer que isso signifique — disse a Billy, enquantopegava o bloco de pedidos e um lápis —, é mau sinal. Um gambámorto nunca indica boa sorte.— Já notei isso.— Especialmente quando o focinho está apontado para o nortee o rabo para o leste.Homens sedentos passaram pela porta logo depois de Ivy, comose ela fosse a miragem de um oásis que eles tivessem perseguidoo dia inteiro. Apenas alguns sentaram-se junto ao balcão; osoutros a mantinham indo de mesa em mesa.Ainda que a freguesia de classe média do bar não fosse gastadora,as gorjetas recebidas por Ivy excediam o que ela poderiaganhar se obtivesse um doutorado em economia.Uma hora depois, às cinco, Shirley Trueblood, a segunda garçoneteda noite, chegou para o trabalho. Com 56 anos, atarracada,usando perfume de jasmim, Shirley tinha seu próprio séquito.Certos homens nos bares sempre queriam uma figura materna.Algumas mulheres também.Ben Vernon, o cozinheiro do turno do dia, especializado empedidos rápidos,foi para casa. O cozinheiro do turno da noite,Ramon Padillo, assumiu o posto. O local oferecia apenas comidade bar: cheeseburgers, batatas fritas, asas de galinha com molhopicante, quesadillas, nachos...Ramon tinha notado que, nas noites em que Ivy Elgin trabalhava,os pratos temperados eram vendidos em maior quantidadedo que quando a garçonete não era ela. Os caras pediam muitomais coisas com molho apimentado, gastavam muito mais vidrosde Tabasco e pediam jalapeños fatiados nos hambúrgueres.— Acho — disse uma vez a Billy — que estão inconscientementeacumulando calor nas gônadas para estar preparados, casoela ceda a eles.— Ninguém nessa espelunca tem a menor chance com Ivy —garantiu Billy.— Nunca se sabe — disse Ramon timidamente.— Não diga que você também está comendo pimenta.— Tanta, que às vezes tenho uma azia de matar, à noite. Masestou pronto.Com Ramon, chegou o barman da noite, Steve Zillis, cujo turnose sobrepunha ao de Billy durante uma hora. Com 24 anos, eradez anos mais novo do que Billy, mas vinte anos menos maduro.Para Steve, o auge do humor sofisticado era qualquer versinhosuficientemente obsceno para fazer homens adultos ruborizarem.Era capaz de dar nós num cabinho de cereja usando apenas alíngua, encher a narina direita com amendoins e dispará-los, comprecisão, num copo-alvo, e soprar fumaça de cigarro pela orelhadireita.Como sempre, Steve pulou por cima da portinhola do balcão,em vez de empurrá-la.— Como vão as coisas, Gafanhoto?— Falta uma hora para eu sair e pegar minha vida de volta— respondeu Billy.— Isso aqui é vida — protestou Steve. — É o centro da ação.A tragédia de Steve Zillis era que falava a sério. Para ele, essebar comum era um cabaré cheio de glamour.Depois de amarrar um avental, pegou três azeitonas numa tigela,fez malabarismos com elas em velocidade espantosa e pegouuma de cada vez com a boca.Quando dois bêbados no balcão aplaudiram ruidosamente,Steve se deleitou com os aplausos como se fosse o principal tenorna Metropolitan Opera e tivesse obtido a adulação de uma platéiarefinada e erudita.Apesar da aflição da companhia de Steve Zillis, a última horado turno de Billy passou depressa. O bar tinha movimento suficientepara manter dois barmen ocupados enquanto os beberrõesde fim de tarde atrasavam a ida para casa e os bebuns da noitechegavam.Na medida do possível, Billy gostava do local nessa hora detransição. Os fregueses estavam no auge da coerência e mais felizesdo que ficariam mais tarde, quando o álcool os levasse àmelancolia.Como as janelas davam para o leste e o sol estava no oeste, aluz mais suave do dia pintava os vidros. As luminárias do teto davamum brilho acobreado aos lambris e aos reservados de mognovermelho queimado.O ar fragrante estava cheio dos perfumes de piso de madeiraao molho de cerveja choca, cera de vela, cheeseburgers, cebolafrita.Mas Billy não gostava do lugar o bastante para se demoraralém do fim de seu turno. Em vez disso, partia silencioso como umfantasma se desmaterializando para longe da casa assombrada.Lá fora, restavam menos de duas horas de luz do verão. Océu era de um elétrico azul Maxfield Parrish no leste e de um azulmais claro no oeste, onde o sol ainda o descorava.Enquanto chegava perto de seu Ford Explorer, notou um retângulode papel branco sob o limpador de pára-brisa do lado domotorista.Atrás do volante, com a porta ainda aberta, desdobrou o papel,esperando encontrar algum tipo de panfleto anunciando umlava-a-jato ou serviço de empregadas domésticas. Descobriu umamensagem bem digitada:Se você não levar este bilhete à polícia nem envolvê-la, voumatar uma linda professora loura em algum lugar no condadode Napa.Se levar este bilhete à polícia, matarei uma mulher idosa quefaz obras de caridade.Você tem seis horas para decidir. A escolha é sua.Naquele instante, Billy não sentiu o mundo se inclinar debaixodele, mas o mundo se inclinou. O mergulho ainda não tinhacomeçado, mas começaria. Logo.

3 comentários:

Devir on 6 de julho de 2010 18:04 disse...

Eu viajei muito antes de entrar para a reserva. parece uma frase que alerta o interlocutor para a melancolia que se aproxima o diálogo, e este muitas vezes se deixa ouvir, por razões quase sempre óbvia, ou porque está sem dinheiro e se deixa alugar, ou porque tem muita fé nos santinhos, sejam de barro ou aqueles papéizinhos impertinente que pessoas impertinentes acham de entregá-los nas filas mais angustiantes.
Então, não vou chorar por estar sentado no banco, meu time nunca é grande coisa mesmo, às vezes ganha mas na maioria perde, e jamais se dá por vencido. Quando jogava fazia o mesmo que os outros, um misto de galhardia, quando havia muitas mulheres na torcida, e incompetência adquirida, quando se via na torcida algum dirigente de times vencedores ou ricos.
Então, novamente, e voce me desculpe, mas voce me surpreendeu, sério, já estou fora do jogo há muitos anos, e não senti aquele tesão de quando fazia gol ora alí, ora lá, e voltava para casa e escolhia qual dedo eu começava aquecer outro jogo; o jogo de casado, que é tão diferente do jogo normal, que a gente abre a calda que nem pavão.
Espera um pouco, preciso exclarecer melhor este ponto, o jogo de acabar casado é muito diferente do jogo de já casado com as bolas.
Espera um pouco, chiii, acho que volto depois, minha esposa está tendo um ataque de nervos.

Eleni, vou ler tudo aqui, gostei de sua pegada!

ps., Odeio quem não me publica, mas fico tentando mais algumas vezes. E não volto mais quando escrevo comentários e os donos(as) colocam uma tão 'sensível sensibilidade' como escudo para não entender o que estou dizendo. Se pelo menos fizesse como faço, fazer de conta que já somos íntimos; as mulheres dou a impressão sempre que só quero comer e os homens que normalmente tem um pau para brigar, dou a entender que a bomba H já me faz parte de arsenal ultrapassado.

Beijos

Devir on 15 de julho de 2010 13:17 disse...

Meu novo blog Quer ser herói?
http://devirqueserheroi.blogspot.com/

Já mandei convite, mas devido a bagunça...

Valéria Sorohan on 28 de outubro de 2010 08:52 disse...

Parece ser uma história bem interessante, cheia de aventuras.

BeijooO*

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